Mural · Poesia

Análise Crítica de “protesto”

Estou honrada e sem palavras, um dos poemas do livro Sala de Estar, “protesto”, foi tema de uma análise crítica da matéria Teoria da Literatura I, no curso de Letras Vernáculas da Universidade Federal de Sergipe. Compartilho com vocês no link abaixo o trabalho completo com essa análise tão aprofundada feita pelos alunos Yann Dias e Letícia Santos. ❤️



Alunos: Letícia Santos e Yann Dias da Silva Maia
Professor: José Juvino da Silva Júnior

Disciplina: Teoria da literatura I

Análise crítica do poema “protesto” de Mônica Meira.

Protesto

Com meu melhor perfume te recebo pela porta da frente

E tento ser coerente com os dedos dos pés encolhidos

Ecoa em mim aquele ruído

Que disfarço bem com um sorriso leve

Dentro de mim explosões

Sentimentos em greve

Multidões insurgentes protestam por minha voz

Depredam tudo, queimam os espaços, fecham as pistas

Ou eu volto a ser artista

Ou serei exterminada

Lembro de quando você me pediu para eu ser mais equilibrada

Guardar os cadernos de versos, a intensidade em desalinho

Agora tínhamos filhos

E filhos precisam da gente por inteiro

Antes do início da novela

Você sente um cheiro de queimado

E me pergunta se ele vem da cozinha

Suspiro desanimada

Você não imagina o que incendeia em mim

Você não imagina nada.

 

Mônica Meira, nascida em Aracaju no ano de 1989, é escritora e graduada em direito pela Universidade Federal de Sergipe. Apaixonada pela faculdade literária desde a infância, dedicou-se à tessitura de seus textos a partir do ano de 2010, culminando na produção de sua página virtual “Vermelho Vivo” e mais tarde em seu primeiro livro físico “Sala de estar”, lançado em novembro de 2016.

A poesia de Mônica reflete as mudanças da produção literária a partir do avanço das mídias digitais, surgindo a “ciberliteratura”, cada vez mais presente no mundo atual. Por conta do progresso tecnológico, as pessoas têm criado, com frequência, espaços virtuais para expor suas obras. Muitos desses escritores virtuais chegam a publicar seus livros, como, por exemplo, as autoras Bruna Vieira e Isabela Freitas, que, antes de publicarem suas obras, seus textos só poderiam ser vistos em seus blogs.

Nascido desse contexto, seu primeiro livro “Sala de Estar”, publicado em novembro de 2016, torna-se muito mais que uma expansão de sua página “Vermelho Vivo”, torna-se seu marco de estreia como expoente da literatura sergipana. Nele, Mônica aborda sentimentos e situações do cotidiano a partir da experiência sensível e da ótica feminina, muitas vezes colocando sua posição de mulher diante de um mundo particular, intimista.

Há, também, a presença de diversos poemas pílulas, surgidos do movimento modernista, que consolidou-se no Brasil a partir da semana da Arte Moderna, em 1922. Esse movimento envolvia a literatura de Oswald de Andrade e Mário de Andrade, a música de Heitor Villa-Lobos, a pintura de Anitta Malfatti e Di Cavalcanti, entre outros artistas. Os poemas pílulas vieram de uma renovação, tendo uma linguagem dinâmica e irônica, com versos concisos no significado.

Em seu poema “protesto”, Mônica retrata a luta íntima de uma mulher diante do querer de sua alma artística e do que a sociedade espera dela, aqui, representada pela figura hipotética do marido ou companheiro. A poetisa evidencia a frustração advinda da expectativa da figura masculina sobre a mulher. Enquanto sua alma queima em sentimentos, o homem não consegue enxergá-la para além de sua figura de esposa, cuidadora do lar e submissa a obrigações do matrimônio.

Mesmo com certo esforço para não contrariar os anseios do companheiro, sua vontade de ser artista, de ser mais que o que lhe disseram para ser é maior. Seus sentimentos protestam contra uma visão rasa do feminino, do seu papel de mulher, pois ela é mais que apenas esposa e mãe, ela é artista, poetisa. Nos versos “ou eu volto a ser artista/ou eu serei exterminada” ilumina-se a ideia de que a arte é a condição para sua existência enquanto mulher, humana.

Essa impossibilidade da abdicação do universo poético cria o conflito entre o que é a mulher e o que se espera da mulher. Nos versos “você sente cheiro de queimado/e me pergunta se ele vem da cozinha/suspiro desanimada/você não imagina o que incendeia em mim/você não imagina nada”, a figura masculina questiona a eficiência de seu papel enquanto esposa, dona do lar, perguntando se havia algo queimando na cozinha, ou seja, se ela tinha sido relapsa com seu única função dentro da casa, invisibilizando todo um contexto íntimo – sentimentos em revolta, que queimam dentro da artista, que fazem dela poesia pura, e não tão somente uma mãe, uma esposa.

Meira reivindica seu papel como mulher diante de uma sociedade machista partindo de uma situação do cotidiano, de uma experiência sensível, expondo seu lado mais íntimo para ecoar a voz dos anseios de milhares de mulheres. A beleza de sua poesia está na possibilidade de entender o que se passa no mundo – no externo – a partir de uma visão íntima, cotidiana; mas plural – ampla.

Referências

GASPAR. Modernismo: poesia quase visual. Espírito Santo: 2004. Disponível em <http://expurgacao.art.br/modernismo-poesia-quase-visual/&gt;. Acesso em: 18 nov. 2016.

MEIRA, Mônica. Sala de estar. Aracaju: Infographics, 2016.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s